
Difícil saber ... qual parte de mim sente essa angústia, qual sente essa vontade louca de fazer acontecer tudo o que for possível. Tudo o que está guardado numa caixinha de brinquedos dentro da minha memória, onde tudo pode ser mágico, colorido, alegre e sempre, sempre pode tornar-se real, parece não aguentar mais me ver assim! Dentro dessa caixinha nada tem de obedecer à gravidade, cada pensamento e cada sentimento apenas entende o que é melhor individualmente e age partindo desse principio.
Por fora ela não mede mais que uns vinte centímetros em cada um de seus lados, por dentro as distancias não se mensuram, e o menor trajeto entre dois pontos é o comprimento de toda a sua vontade. Como já mencionei a gravidade apenas mostra um jeito melhor de se prender quando necessário for, mas todos possuem o direito de decidir qual o caminho mais adequado para se manter vivo. O respeito é automático, como entender que temos a sede e a fome, a liberdade é compreendida quando reparada a natureza de uma escolha, e não a escolha da natureza humana.
A ciência lá dentro faz incríveis avanços, o riso é a terapia da moda, a luz o melhor alimento e todos lá sabem que devem tomar banho de chuva, pelo menos uma vez na vida, durante o verão, em outras ocasiões podem esconder-se nos guarda-chuvas solícitos em ajudar. O sol brilha todos os dias, mas nada impede a lua de lhe fazer companhia, quando as flores precisão descansar elas simplesmente relaxam à beira mar e tomam um bronze. Quando os animais precisam dormir eles apenas, dormem. Quando precisam de algo que ainda não o possuem, o que raramente acontece, tudo se reuni e doam um pouquinho de sua melhor essência, e de repente surge um novo membro neste mágico mundo.
O mais incrível não é a falta de obstáculos, confusões, tropeços ou perdas, a beleza daquele mundo está na maneira como agem diante de tudo o que acontece. É comovente ver a compreensão, o choro, a mão estendida a cada queda. Não menos inspirador é ver a maleabilidade com que levam a sutil vida dentro da caixa, tudo se completa, nada se joga fora ou se incapacita. Crêem antes de tudo na potencialidade de cada célula que ali está desempenhando sua função, fazem de tudo para que a harmonia liberte, e até me entendem quando digo que é esmagador saber que não podem percorrer o resto do meu corpo, como fazem com minha alma. Entendem o meu discurso cego, hipócrita, agarrado no mais ridículo senso de limitação que pode haver, mas sabem que um dia esse pano irá sair de meus olhos, colocado e tirado pelas minhas próprias mãos, e então estarão prontos e aptos a me iluminar com toda a luminescência capaz de existir.
Bebo cada gota de orvalho que pinga da caixa ao amanhecer, buscando sorver do ínfimo liquido toda a amabilidade prevista. O pouco que me permito reacende a chama da criatividade e do senso lúdico capaz de manter viva a crença de que esse mundo me faz ter os melhores momentos de minha vida, e que quando eu quiser mais é só crer mais!
TExto: Ana Paula Alves
P.S.: Qualquer semelhança com o filme " A loja mágica de brinquedos" não é mero acaso, ok? Eu realmente me inspirei naquele cubo de madeira que não era só um cubo de madeira. Mas em nenhum momento eu copiei trechos do filme ou falas... ou ideias... nada! Bom, então é isso!


