Friday, February 18, 2011



















A beleza do lugar era singular, bem diferente do que acostumo ver dia-a-dia. Árvores grandes de grossos troncos, copas altas esverdeadas, os pássaros cantavam tranqüilos misturados aos movimentos bruscos e estrondosos dos ônibus e carros, dos gritos de toda a vizinhança com suas crianças remelentas seus bêbados e suas mulheres negras cansadas e desnudas nas ruas, o hino da saudade que eu sentia de casa.

Não posso negar que a hostilidade serpenteava o ar e me envolvia de maneira angustiante, nos momentos sociáveis eu divida a vista de um belo mar, de um sol caloroso e de sabores que alimentavam mais que as vísceras. Certa vez o ambiente exalava algo como cachorro recém saído de um banho rápido descansando à sombra, mas mesmo assim era boa alternativa para quem ficava sozinha no mundo rosa.

Rosa. A casa não era mais rosa, mas ainda como a conheciam por ali. Um homem de cabelos negros e longos, grossos fios grafite, me visitava raras vezes ao dia e me dava à noção do mundo fora dos portões do casarão. Tinha também uma barba, e me levava sempre a passear quando o sol encostava-se às pedras da praia. Aos poucos conhecia mais daquele lugar hostil, fora dos padrões da bolha elástica na qual mantive minha vida pacata com meus problemas bobos e tão ridículos, o que era um amor não correspondido escondido e mal dedicado se eu via ali a falta de família, a falta de tempo pra ver os seriados preferidos num canal de televisão se eu via ali a falta de higiene de toda uma comunidade que reza pra não desabar na próxima chuva, a preguiça de estudar enquanto eu via ali a carência de tudo e qualquer coisa que em mim existia sem nenhum esforço.

Toda depravação, anseio de liberdade, vontades que não conhecem limites, todas as possibilidades encontrei num só dia da semana, reuniam-se num circulo de paixões concretadas e cercadas por estreitas portas de três ou quatro andares que conduziam músicas e serviam o mundo amarelo espumoso enlatado ou engarrafado. Observando de um canto, olhos de juiz condenando o mais puro coração, dilacerador de vidas por amor que se faz suicida antes de qualquer outra coisa. Mas esses mesmos olhos acostumaram-se foram aceitando o fato do ser humano ser tão cheio de rachaduras e roncos surdos.

A partir de então as distancias foram ficando mais caminháveis e os becos menos mal cheirosos. Percebia-se o encanto nos detalhes que faziam tão fortes aquelas pessoas excluídas de toda a felicidade no meu inventário.

Descobri então porque falavam tão bem daquele lugar, conheci enfim o que atraia toda a gente do mundo. Uma estátua branca, de braços abertos. Um homem de roupa inteiriça, lisa, cabelos compridos e barba, colocado no alto de um morro verde, quente, pois mais perto do sol estávamos a admirá-lo. Tantas línguas, peles, sorrisos, cores. A vista era a coisa mais bela até o momento. Parecia agora com o esperado, tinha a cara do lugar que eu desejei... O mar azul infinito, a areia branca e fina, os montes e morros que com aquela distancia não se via do quê eram recheados, as pessoas feito formiguinhas e o vento a embaraçar meus finos e ralos pelos da cabeça. A fotografia perfeita de vários disparos que nos transporta pra fora de todos os pensamentos ruins e bons, das lembranças e só o que se vê é o que se tem na mente. Todo o resto parece perdido pela estrada do trem que nos leva até lá.

E ainda mais vazia fica a mente quando pego um teleférico e além daquele alto me levo. O vento lá não é quente de outrora, é fresco e renovador, é vazio de gente e maresia. É leve feito qualquer coisa que não faça parte do submundo que hospeda as belezas que eu jamais desejei deixar. Tive a vontade de montar uma barraca ali, de escrever um livro, de fotografar a cada milésima fração de segundo por 24 horas todo aquele lugar. Quis tocar violão, quem sabe piano, desejei ligar para o inquilino do meu coração e declarar todo o mundo que eu via e dizer que dividir com ele seria só um pouquinho mais de perfeição. Sentei num banco branco, me dei uns minutos de nostalgia dali, de saudade de estar onde estava naquele momento. Sorri. Porque eu percebi, o quanto cada coisa pode ser especial e fugaz apenas alguns metros acima de todo o caos e preconceito.

Assim fui me despedindo daquele paraíso de mim mesma, do espelho da alma e do reflexo de todo o mundo. A descida foi rápida e sem tanta emoção, não tinha mais nada a ser dito nem se tinha mais força pra acreditar em algo melhor. Não é tão complicado entender que a diferença é encantadora quando se percebe o que há de bom em todas as realidades.